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Migração: os jovens que mudam de estado em busca de uma vida melhor

Por Saul Monteiro e Dário Rafael




O quão longe se vai por uma vida melhor? Desde o início da civilização, a humanidade é movida pelo desejo de satisfazer suas necessidades e melhorar não só a própria qualidade de vida, mas também a daqueles que ama. Na sociedade brasileira atual, qualquer cidadão de classe baixa reproduz uma instrução muito clara de como fazer isso para seus filhos: estudar. E para aqueles que escutam, correr atrás de seus sonhos e de algo melhor para sua vida nunca é fácil, muito menos quando se precisa deixar família, amigos e toda uma história para trás.


Em 2004, o já existente Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) passou a ser aceito como método de entrada nas universidades públicas do Brasil, num sistema semelhante ao existente em outros países, como Estados Unidos, França e Japão. A abrangência nacional desse sistema, mais frequentemente utilizado por jovens entre 18 e 24 anos, causou um fenômeno de “êxodo” entre esta parcela da população, que viu a oportunidade de seguir seus sonhos ao alcance de suas mãos, mesmo que, para isso, precisasse viver longe da família e de suas raízes. O último censo de Educação Superior, realizado em 2018, acusou que, entre 300 mil matriculados nos cursos de unidades federativas do país, mais de 30 mil vinham de outros estados. As próprias informações das instituições corroboram o dado apresentado, a exemplo da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde 23% dos quase 20 mil estudantes não são oriundos do local, e a Universidade Federal Fluminense (UFF), que teve mais de 2 mil alunos nessa situação nos últimos anos.


Entre as já convencionais dificuldades de ingressar e cursar uma faculdade, estes alunos são apresentados a novos e únicos problemas, como adaptação a uma cultura diferente, distância da família e dificuldade de se locomover de volta para suas regiões em períodos de férias. Tais desafios causam graves perturbações psicológicas aos alunos, que não possuem auxílio governamental, muitas vezes precisando de bolsas da universidade ou da ajuda de familiares e amigos para sobreviver. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) revela que, entre os alunos que estudam numa unidade federativa diferente da que nasceram, quase 15% se afasta das aulas ainda no primeiro ano de graduação. Uma taxa de evasão alta e preocupante.


Adaptação à uma vida nova


Dentro dos mais de 2 mil alunos migrantes recebidos pela Universidade Federal Fluminense, está Maria Eduarda Barros de Andrade, ou Madu, de 21 anos, nascida e criada em Maceió, capital de Alagoas, e oriunda de um bairro litorâneo e pesqueiro, onde a família mora há gerações. Madu detalha que a mudança de ritmo foi uma das maiores dificuldades da integração. “Eu acho que era tudo menos agitado e menos cansativo (em Maceió), sabe? Um dos choques de me mudar para o centro de Niterói foi ver como é uma cidade que não para tão cedo, de manhãzinha até tarde da noite as pessoas estão em correria. E o mais estranho foi perceber que não há tantos vínculos com a vizinhança, ninguém se importa muito com o que acontece fora da sua própria vida pessoal e seus interesses”, conta, relembrando as relações mais próximas em seu bairro natal.



Estudante de cinema no segundo período e empolgada com a faculdade, Madu relata que os dois pontos principais para a mudança foram a inexistência do curso na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e o fato do Rio de Janeiro ser um dos grandes pólos nacionais da área. Além disso, a existência de um tio morador de Niterói há muitos anos facilitou o processo pelo fato de ter uma moradia garantida sem custos. Apesar dessa conexão, a alagoana conta que não recebeu apoio imediato da família. “Achavam que eu falava em tom de brincadeira, como se fosse um sonho distante que jamais se realizaria. Quando eu passei e precisei me mudar, eles tiveram um mês para aceitar que era real e me apoiar. Houve a insistência para que ficasse em Maceió fazendo Jornalismo na Ufal, mas no fim eu não quis abrir mão do meu sonho e com uma certa insistência eles aceitaram. Hoje em dia, ainda me ligam para perguntar como está minha adaptação e me dizer que eu posso desistir a qualquer momento que eles iriam entender. Mas eu não culpo a reação deles, a maioria da família nunca se mudou, foi de fato um choque e com o passar do tempo vai se tornando mais fácil para mim e para eles.”


Companheiro de Madu no curso de Cinema, Otávio Frederico Leocádio, nascido em Ervália, cidade com 19 mil habitantes do interior de Minas Gerais, é outro jovem que decidiu sair de casa em busca dos seus sonhos, deixando para trás a mãe que, apesar de incomodada com a decisão, sempre apoiou e auxiliou o filho. A diferença de tamanho das cidades não foi desconfortável para ele, que conta se sentir compatível com Niterói. “Eu gosto da cidade e de ter coisas para fazer, da variedade de pessoas que se tem aqui e não tem na minha cidade. Mas sinto falta de estar e ter as mordomias de casa. A única dificuldade que ainda enfrento é não estar satisfeito com o lugar que moro aqui porque a alimentação é muito cara”, ressalta, ainda dizendo que não sentiu muita diferença com relação a sua cidade natal, exceto pela alta taxa de criminalidade comum em cidades grandes.


Ambos falam muito da saudades de suas casas e famílias, sentimento que Madu diz ser como uma montanha-russa. "Às vezes tô feliz e realizada com a conquista de um sonho, às vezes tô querendo colo de mãe, dar carinho no meu cachorro, abraçar meus amigos, entrar no mar pertinho, dar um beijo no meu namorado. Às vezes a saudade me destrói, mas a faculdade ocupa bastante o meu tempo, o que ajuda bastante.” Nesse sentido, psicólogos da área reiteram a importância da família na saúde mental do jovem, mesmo com a distância. Auxílio financeiro e suporte emocional são essenciais, em especial quando os jovens não têm condições de trabalhar para se manter, como em casos onde a faculdade é integral.


A criação de conexões com pessoas na nova cidade também é crucial para a saúde psicológica desses estudantes, e a própria Madu conta como a participação de outros na mesma situação foi importante. "Foram estas pessoas de outros Estados que me deram mais forças para não desistir no meio do caminho. Estamos sempre juntos, ajudando um ao outro, porque chegamos todos meio perdidos na cidade.” Entretanto, desafios são postos também nas relações interpessoais na forma da xenofobia, que Madu afirma ter sofrido com mais frequência durante as eleições. Além disso, relata desconforto diante das generalizações comuns, como tratar o Nordeste como um local só e sem suas próprias regionalidades ou pessoas querendo ouvir seu sotaque, o que ela diz ter se sentido como uma atração de circo.


Jogados à própria sorte


Por ser um processo recente e um fenômeno das classes mais baixas, essa migração dos jovens não possui tanta repercussão e atenção. Com isso, são poucos os recursos deslocados do governo para auxiliar na situação, resultando que estes brasileiros passam por muitas situações degradantes e estressantes para se manter e sobreviver. Renato Alves da Silva Moreira é alguém que entende desse assunto mais que ninguém e um dos poucos que conseguiu ultrapassar as expectativas e se formar na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), após vir de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Ele relata que sua maior dificuldade foi lidar com a falta de dinheiro, pois vem de uma família de baixa renda e dependia das bolsas da faculdade e de bicos quando tinha tempo, que muitas vezes não eram suficientes. “Houve meses em que eu mal tinha dinheiro para comer. Tinha que depender do Restaurante Universitário e de ajudas de amigos para pagar o aluguel do quartinho que eu morava. Pedir dinheiro para a família quase nunca era uma opção porque as coisas sempre estavam complicadas lá em casa. Até pra visitar, mesmo sendo só umas horas de viagem, eu raramente ia porque estava sem dinheiro.”


Renato lembra do desespero de quando as bolsas atrasavam ou quando havia ameaça de corte, das dúvidas que sentia sobre suas decisões e do quanto batalhou para conseguir sobreviver durante os anos iniciais. Ele diz que a condição só melhorou quando começou a achar trabalhos na área em que atuava, pouco antes de se formar, e recorda que outros colegas migrantes não tiveram a mesma sorte, e muitos até desenvolveram problemas psicológicos ou precisaram voltar para suas cidades por outras razões. “Sinto que havia um grande descaso pela nossa situação, pois não havia nenhum programa governamental que nos ajudasse de forma concreta. As bolsas da universidade não eram suficientes, estávamos jogados à própria sorte. Não faltava vontade e nem ambição. Só dinheiro.”


Além das dificuldades de moradia, o transporte é um fator muito importante para estas pessoas, no sentido de poderem visitar suas famílias em períodos de férias. Em razão disso, o governo possui um programa chamado Identidade Jovem, de emissão gratuita, que serve para o estudante de baixa renda conseguir desconto de 50% em eventos artísticos e culturais e dá direito a duas vagas gratuitas em transportes interestaduais. Este documento, assim como tudo envolvendo a esfera deste tipo de migração, é pouco divulgado e muitos não sabem de sua existência, fato explicado e criticado por Madu. “Sinto que o governo não fala de forma muito clara e aberta para o público sobre as possibilidades de estudar fora do seu Estado, tampouco se esforçam para tornar acessíveis essas possibilidades. Eu tive que pesquisar muito para me informar e descobrir que existe a opção de fazer a Identidade Jovem, mas o processo é burocrático e estou tentando fazer desde junho.”


Saber da existência do Identidade Jovem antes teria sido um divisor de águas para Renato, devido aos eventos que deixou de comparecer por não ter dinheiro suficiente e a possibilidade de ver a família com mais frequência. “É algo que faz diferença, né? Sempre que eu conseguia voltar para casa por uns dias, chegava em Maceió renovado. É uma lembrança do motivo pelo qual eu lutava, de não ter uma vida melhor só pra mim, mas pra eles também. Se eu consegui passar por tudo aquilo, foi por ter eles me esperando e torcendo por mim.”


Em busca de um sonho


Dos milhares de alunos que deixam suas casas para buscar uma vida melhor em outro lugar, todos carregam em si sonhos, vontades e a esperança de melhoria, de conquista. Por isso, apesar de tantas dificuldades, continuam na luta, sem deixar a esperança de lado. “A formatura foi um dos melhores momentos da minha vida. Nem toda a família conseguiu vir, mas ter alguns deles ali ao meu lado, comemorando depois de tantos anos de batalha, foi algo de outro mundo. Eu consegui!”, comemora Renato, atualmente graduado em Psicologia pela Ufal, exercendo a profissão e a caminho de iniciar sua pós-graduação.


Para Madu e Otávio, ainda no início do caminho, a sensação é a mesma. “Mesmo que o processo de estudar integralmente seja bastante cansativo e trabalhar com arte e comunicação exija muita paciência, tempo e criatividade, estudar o que ama sempre é gratificante. Então eu estou adorando essa oportunidade”, diz a alagoana. Atualmente, ambos estão terminando o segundo período de Cinema na UFF e estão ansiosos pelo que têm pela frente, assim como os próximos milhares de alunos que devem ingressar em faculdades fora de seu estado natal durante os próximos anos.


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