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Pautas Raciais: quem tem o lugar de fala?

Tema é colocado em debate nas celebrações ao Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, na Ufal.

Por Hemilly Souza

O ‘lugar de fala’ é um termo que se popularizou no Brasil após o lançamento do livro da escritora Djamila Ribeiro, em 2017. Para a escritora, lugar de fala se refere à discussão de poder considerando o papel do indivíduo na estrutura social. Nesse contexto, a ideia do lugar de fala tem por objetivo oferecer visibilidade aos sujeitos que vivenciaram em aspectos sociais os temas discutidos.


O termo foi pautado, nos dias 25 e 27 de julho, durante os debates em celebração ao Dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, no auditório da Reitoria da Universidade Federal de Alagoas. O auditório, com capacidade para 300 pessoas, esteve quase vazio ao longo das programações, nessa circunstância, os palestrantes fizeram colocações sobre o que é lugar de fala nos cenários raciais e a quem pertence esse lugar.



Auditório da Reitoria, terça-feira (25) Foto: Hemilly Souza


Para a professora Rosa Correia, a ausência do público nessas apresentações se dá devido à crença de que as pautas raciais só podem ser discutidas por pessoas pertencentes aos grupos: “Lugar de fala não é o espaço apenas para as pessoas pretas falarem sobre o racismo, o lugar de fala pertence a todos desde que reconheçam os seus privilégios”, disse Rosa.



As palestras em homenagem à mulher negra contaram com um público majoritariamente feminino e negro, permitindo a análise de outra vertente referente ao lugar de fala: “onde estão os homens?”. O professor Vagner Bijagó, problematizou a ausência do público masculino nessas discussões, pois a violência de gênero é uma realidade severamente enfrentada pelas mulheres, sendo ainda mais grave quando é realizado o recorte entre as violências de gênero e raciais sofridas pela mulher negra.


“Estou aqui como um homem negro (...). Então se o homem negro ainda pratica o machismo, se estamos discutindo a questão da mulher, ele também tem que se fazer presente. Agora, não enquanto protagonista, mas sim enquanto aquele que reconhece o problema no sentido de ajudar na sua solução”, diz Bijagó.


A ausência de pessoas brancas nos debates também permitiu outra reflexão, existe a necessidade de abordar assuntos relativos às lutas raciais na presença do público causador desses problemas, porque se os brancos não estiverem presentes para ouvirem os questionamentos, não compreenderão quais são os caminhos para desfazer a estrutura racial que os privilegia, logo o racismo continuará enraizado e se perpetuando.



Reitoria da Ufal, quinta-feira (27) Foto: Hemilly Souza


A ocupação em ambientes acadêmicos e o estudo de políticas sociais de inclusão para os negros são recentes, se comparado ao tempo de exclusão civil vivido por eles. Segundo a professora Marli Araújo, a universidade é uma instituição de origem europeia, judaico-cristã, não arquitetada para formar profissionalmente a população negra, com isso não foram estabelecidos espaço de escuta para esses povos e o resultado são transformações sociais lentas, as quais só existiram pela união dos movimentos negros, suas lutas e reivindicações.


“O meu concurso foi sem cotas, quando eu fiz não existia ainda a cota nos concursos públicos que agora tem que acontecer, de acordo com a legislação de 2018. A partir da legislação, a Ufal começa a ter pessoas negras discentes de graduação, posteriormente na pós-graduação e nos concursos, culminando em ter um movimento negro que luta e isso está acontecendo aqui hoje”, afirma Marli.


A busca por uma sociedade igualitária consiste em cada indivíduo reconhecer os seus benefícios e, não somente, entender qual é a sua colocação na esfera social, como também adotar as lutas das minorias. Portanto, o lugar de fala não é a demarcação de quem pode e quem não pode falar, mas o entendimento do seu local como locutor.

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