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Afroempreendedorismo: histórias de dor, luta e sucesso de três empreendedoras de Alagoas

Atualizado: 31 de jul. de 2023

Por: João Pedro Magnani




O Afroempreendedorismo carrega na palavra o seu conceito, unindo “afro” ao “empreendedorismo”, ou seja, empreendedorismo ligado a pessoas negras ou afrodescendentes. Contudo, essa palavra carrega muito mais do que isto. Ao entrevistar três empreendedoras negras, pude perceber que tem um sentido muito maior, carregando sinônimo de dor e medo, ultrapassados por luta e resiliência.


Em muitos casos, o ato de empreender surge pela busca da autonomia financeira. Mas, pelo que pude observar dentro do afroempreendedorismo alagoano é que, além da necessidade de gerar renda, há uma grande busca pela identificação negra, desde a criança que não aceitava os cabelos das bonecas que ganhava, até a mulher que não encontrava maquiagem ou bijuteria que a servisse.


Dentre os relatos destas afroempreendedoras alagoanas, a falta de capacitação e investimento para iniciar o negócio foram as principais barreiras enfrentadas. Porém, o apoio familiar e o espaço que se abriu, pelo fato de outras pessoas buscarem essa identificação, fez com que o negócio tivesse sucesso.


ROSILEA VIANA

Criadora do Divinas Pretas, Rosilea é uma mulher negra, mãe solo de dois filhos e avó. Aos 13 anos, Rosilea, que perdeu o pai muito cedo, já dava aulas de reforço escolar. Ela foi aluna de escola pública e realizou um curso técnico de química. Viana foi aprovada em Engenharia Química, na Ufal, mas não pôde concluir, pois engravidou.


Rosilea tinha o desejo de ser funcionária da Petrobras. Ela foi aprovada no concurso e trabalhou por 15 anos na empresa. Contudo, uma transferência forçada para Curitiba fez com que ela deixasse a empresa. Ela relatou que no período também estava havendo chacinas contra jovens negros e que tinha uma grande preocupação em deixar seu filho, mais um motivo para ter saído da Petrobras.



Neste momento surge a Divinas Pretas. Em meio a dor e a necessidade dela e de várias mulheres negras que não encontravam maquiagem para determinas tons de pele surgiu a Divinas. Inicialmente, de forma online e voltada para maquiagens para as mulheres de pele negra.


“Sempre pensando no próximo, sonhei com uma collab e ela nasceu: A primeira Afroloja Colaborativa do nosso Estado”, afirmou Rosilea.


A Afroloja Colaborativa foi construída em 45 dias. Criada por Rosilea, ela possibilitou que novas afroempreendedoras surgissem. Foi o caso de Wilma Feitosa.


WILMA FEITOSA


Da área da saúde ao empreendimento próprio. Responsável pela Biju da Nega desde 2017, Wilma era empregada na área da saúde como técnica em saúde bucal. Contudo, observando a falta de produtos (bijuterias e maquiagens) que a identificassem, em Alagoas, decidiu empreender.


Comecei a empreender por vontade de usar produtos que me identificasse. Não por necessidade. Mas, por querer me sentir representada naquilo que eu usava.” Afirmou, Wilma Feitosa.


A Biju da Nega foi a primeira revendedora, em Maceió, de produtos da marca Saúda Afro.


Wilma relatou que a Divinas Pretas abriu as portas para o início da Biju da Nega e tem Rosilea como figura importante nesse processo de crescimento do empreendimento. “Eu fiz parte da Divinas Pretas. Foi um processo importante porque a gente tem medo. O empreendedor tem medo de abrir uma loja e não dar certo. A Divinas Pretas me serviu como experiência. ” Disse, Wilma.



O crescimento do público da Biju da Nega, que surgiu em 2017 e que até o momento é apenas online, fez com que Wilma acreditasse em uma loja física, que está em processo avançado. O surgimento da loja física atende uma necessidade do público, de experimentar o produto.


Feitosa alegou que a falta de espaço e oportunidade são as maiores dificuldades enfrentadas pelo afroempreendedor. Ela afirmou que o afroempreendedor é uma figura esquecida em boa parte do ano, tendo uma agenda cheia apenas em novembro.


Quando questionada sobre o surgimento da vontade de empreender, Wilma relatou, “O processo começou a partir da minha transição capilar. Quando a gente muda o cabelo, a gente vai mudando de fora para dentro. Foi o período que eu comecei a me descobrir como mulher negra”.


Esta transição capilar foi realizada com Yalla Barros.


YALLA BARROS




Nascida e criada na Favela do Bolão, Yalla confessou que sempre teve vontade de trabalhar com algo relacionado a estética. Quando criança, Yalla transformava os cabelos das bonecas que ganhava, para buscar uma maior identificação nestas, algo que chamou a atenção de sua mãe que sempre a apoiou.


Eu sempre tive essa vontade de trabalhar com estética, minha mãe percebeu isso através dos meus brinquedos. Todas as minhas bonecas passavam pela transição, eu cortava todos os cabelos. E, era uma forma de expressar que eu não me identificava com aquelas bonecas”, afirmou, Yalla.


Apesar de se notabilizar, hoje, pela estética capilar direcionada para o público afro com o Afro Yalla, Barros começou a sua vida profissional muito cedo como uma manicure, por admirar a manicure de seu bairro. Ela acompanhava sua mãe, que tinha um empreendimento no Mercado da Produção, e oferecia seu serviço estético. “Eu saía de banca em banca, oferecendo meus serviços”, disse Yalla.


Aos 15 anos, Yalla fez um curso no Senac de cabeleireira profissional e seguiu se especializando. Depois, ela seguiu para uma oficina para especialização em tranças africanas. Com este curso, Yalla percebeu que realmente queria trabalhar com cabelo afro. A profissional buscou novas especializações em outros estados. Em 2017, em São Paulo, ela realizou um curso de arquitetura dos cachos. Além disso, também realizou cursos em Belo Horizonte e Salvador.


O Afro Yalla surgiu em 2005. Ela começou o projeto dentro da própria casa, na Favela do Bolão, em uma época onde não havia tanta visibilidade para o mercado afro. Ela começou trabalhando com as meninas da própria rua, mas teve que sair para outro bairro por conta da violência.


Todas as vezes que eu mudava de bairro, o salão ia comigo. É um trabalho de muita luta. No começo não foi muito aceito. Quando eu comecei, poucas pessoas passavam pela transição. Esse assunto não se falava. Não existia isso”, relatou Yalla.


Yalla teve que sair de Maceió, passou um tempo em Marechal Deodoro, mas viu a necessidade de retornar à capital. Neste retorno, ela abriu o salão na sala da própria casa, no Farol, e obteve grande sucesso.


Eu comecei a receber pessoas que tinham uma visibilidade muito grande. Laura Cavalcanti, que é aluna aqui da Ufal, me apresentou o Instagram, que é um meio de divulgação que hoje a gente retira a nossa renda, as redes sociais. Blogueiras foram ao meu salão. Eu tive uma visibilidade muito grande. E, surgiu a necessidade de ter um ponto comercial” Afirmou, Yalla.


Em 2018, ela teve a primeira equipe. Ela falou que a falta da profissionalização da mão de obra foi umas das principais barreiras encontradas, para ela, em seu início e para os demais interessados. E, ela mesma teve que fazer o trabalho de profissionalização com as meninas da equipe.


Yalla relatou que uma das maiores dificuldades dos afro empreendedores é para conseguir recursos para investir em suas ideias. E deixou como mensagem: “Sempre que for buscar sua independência financeira, procure conhecimento. Muitas vezes, estamos em busca de algo, mas não sabemos encontrar esse caminho. E, o que nos leva para esse caminho é o estudo. Escutem a experiência das pessoas”.


Hoje, a Afro Yalla fica localizada na Avenida Jatiúca, em Maceió.


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